Edição Nº 01 · Outubro 2026
KernMAGAZINE

Ficção · Folhetim

TechnoKabalah: Um conto sobre o futuro

Entre a chuva ácida, o culto à deusa Cyber e o cinismo das escolas de elite: o início de uma distopia tecno-feudal.

Por Marcelo Correia · Edição Nº 01 · Ato 1 de 5 · 2 min de leitura

Dominant People School — arte de vanguarda, estilo expressionista alemão
Dominant People School — arte de vanguarda, estilo expressionista alemão

O sol estava nascendo, Lena estava se preparando para ir à escola, e seu pai e sua mãe para o trabalho, mais um dia comum na vida da família.

Lena ativou seu RetinoAI para começar a organizar seu dia. Em seus olhos, algo semelhante a uma tela de computador onde ela conseguia "navegar"; ela estava conferindo o que precisaria levar para a escola e se não havia esquecido nenhum trabalho escolar.

O pai e a mãe de Lena eram funcionários da Longwang Biotecnologias Brasil, como boa parte de toda a população localizada na região centro-sul do estado de São Paulo. A RetinoAI era um produto da Longwang. Enquanto tomavam café da manhã, a família assistia às notícias do dia: a previsão do tempo era de chuva ácida e as pessoas não deveriam sair de casa nos próximos dias, incluindo o domingo.

"Ora, bem no domingo do culto na Congregação Divina Crypto", lamentou a mãe, uma fervorosa adoradora de Cyber, a deusa da realidade.

“Ora, bem no domingo do culto na Congregação Divina Crypto.”

"Pelo menos pra isso a chuva ácida presta", resmungou Lena, que odiava os cultos da CDC, o que ela chamava de ajuntamento de ultrapassados.

Lena gostava de ir à Carmilla Society, um grupo tecno-gótico que adora simbolicamente a deusa Éris, com músicas techno dark e metal progressivo dadaísta. A jovem usava o tempo com os amigos para beber O Chá, feito de um produto de "entretenimento único", segundo a criadora Nádia Lukinsky, que fundou a Éris Toys.

O Chá e a Carmilla Society — fotomontagem de vanguarda, estilo dadaísta mecânico
O Chá e a Carmilla Society — fotomontagem de vanguarda, estilo dadaísta mecânico

Como típica adolescente da época, principalmente as adolescentes de classes mais altas, as comunidades tecno-góticas eram a principal diversão, e eram legalizadas pela Lei Jovem Independente, criada pelo governo conservador.

Alguns ousavam dizer que a Lei foi criada apenas "para que os velhos gordos pudessem transar legalmente com novinhas", como disse uma das jovens que frequenta a Carmilla Society. Apesar de a lei contemplar o jovem — teoricamente — com oportunidades de trabalho desde os 14 anos, o que se via mesmo era a esbórnia.

“Como disse uma das jovens que frequenta a Carmilla Society: a lei foi criada apenas para que os velhos gordos pudessem transar legalmente com novinhas.”

A escola de Lena era em tempo integral: a Dominant People School, uma das mais caras do Estado de São Paulo. Os mais pobres estudavam na Delusioned People School. Ambas as escolas foram fundadas pelo americano Peter Oliver Azael, um seguidor e financiador da CDC.

Lena chegou na escola por volta das 8 da manhã. Suas amigas, Maria Antonieta Kaunas e Joana Kronenberg (ou Princesa Kronenberg, pois era filha dos imperialistas alemães Kronenbergs, donos das regiões Sul e Sudeste do País) já estavam lá.

"Olha aí, se não é a senhorita Lena Jacobí", disse Maria.

"Qual foi, Mak, nem demorei tanto assim. Sem contar que a gente entra quando quiser, somos nós que damos dinheiro para aquele cara de porco do Peter", respondeu Lena, mostrando uma figura que tinha feito do Peter Oliver com cara de porco.

"Relaxa, Mak, meus pais financiaram essa escola, então ela é nossa", Joana falou com cara de tédio e desprezo. Mak era o apelido de Maria Antonieta, uma abreviação das iniciais de seu nome.

“Meus pais financiaram essa escola, então ela é nossa.”

Elas entraram na escola sem serem incomodadas, enquanto os pais delas iniciavam seus expedientes.

(Continua no Ato 2...)

◆

Continue lendo

Democratizar e digitalizar a educação não pode ser sucatear →