Edição Nº 01 · Outubro 2026
KernMAGAZINE

Educação · Texto fundador

Democratizar e digitalizar a educação não pode ser sucatear

Do interior de São Paulo aos conglomerados bilionários e às edtechs: um relato de dentro sobre a precarização do ensino e do trabalho docente.

Por Marcelo Correia · Edição Nº 01 · 6 min de leitura

Educação mecânica — arte de vanguarda, estilo construtivista
Educação mecânica — arte de vanguarda, estilo construtivista

Estamos na era da democratização e digitalização da educação. Mais pessoas estão tendo acesso a ela, independente de classe social ou região demográfica. O número de pessoas que têm acesso ao ensino superior aumentou nos últimos anos, e isso é factual.

Mas não estou aqui para falar sobre números. Aqui falarei sobre os rumos sinistros que essa história vem tomando. E eu não sou uma pessoa de fora: sou fundador de um projeto educacional, ouvi e entendi a percepção do que é investir em educação no Brasil. E não, não é sobre educar.

Há camadas nesse assunto, que vão de políticas públicas às grandes corporações privadas educacionais e ao nicho de onde venho como empreendedor, as edtechs. São três lados, e estive em todos eles, de formas diferentes, em períodos diferentes e em posições diferentes.

Como progressista que sou, e como alguém que desde muito jovem foi motivado a estudar, nunca me enxerguei em posição inferior a ninguém por vir de uma família pobre do interior de São Paulo. Nasci no "meio do mato" e, mesmo ali, me interessei por aprender inglês e buscar novos horizontes. Me interessei por música, filosofia e sempre fui um questionador do que consideramos, de certo modo, cultura nesse país.

“Um projeto educacional no Brasil não nasce com foco em educar; nasce com foco, assim como vender esfihas, em lucrar.”

Estudei a vida inteira em escola pública e pude ver como certas medidas de um governo que, sim, votei e, sim, ainda prefiro a certos nomes por aí, ajudaram a derrubar a qualidade do ensino. E não é exagero dizer que a ascensão da extrema-direita no Brasil tem, como parcela de culpa, a própria esquerda. As escolas públicas, principalmente as do interior, oferecem ensino integral para "inglês ver". Foi o que notei quando fui realizar um trabalho da faculdade na escola onde estudei quando criança: o que era ruim na minha época parecia, em certos pontos, ter piorado.

Falta de professores, alunos zanzando pela escola sem rumo, nada de aprendizado. Apesar de a escola ter um grêmio estudantil e ter bons aspectos por um lado, ainda tinha e tem muita coisa para melhorar. A educação de qualidade do ensino integral ainda está longe de ser prática. E muito dessa falta de avanço passa também por uma situação muito mais complexa: os cursos de licenciatura são, falando de modo elegante, bizarros. Em 2024, ano em que fiz esse trabalho de extensão, eu estava em um curso de licenciatura em ciências biológicas que, após um semestre e meio, abandonei. O motivo foi simples: muitas das aulas davam vergonha alheia, ao ponto de minha mãe dizer: "É isso aí que eles ensinam na faculdade?". Tive que concordar, envergonhado, que aquilo não deveria ser ensinado em um curso de licenciatura no século XXI. As coisas precisam mudar.

Após abandonar esse curso, imediatamente entrei em um bacharelado EAD em ciências da natureza, que finalizarei em 2027. E aí vem outro problema: ao mesmo tempo em que é fantástico estudar em casa, ter flexibilidade e uma mensalidade acessível, é deplorável ver o quão mal organizado, estruturado e executado é o curso. É verdade que a faculdade tem vários eventos para além da graduação, mas algo tão malfeito não poderia vir da segunda maior instituição de ensino particular do Brasil. Um conglomerado educacional com aquisições na casa dos bilhões de reais não pode se submeter a certos relaxos.

Já fui aluno do Grupo Cogna e agora da Yduqs. Vendo o montante que eles faturam, não dá para aceitar os polos — ou salinhas que chamam de polo educacional — nem conteúdos de grade curricular tão pobres, mal revisados e malfeitos. O título de democratizar e digitalizar a educação não pode se reduzir a desculpa para o sucateamento do ensino superior.

É bem verdade que a Yduqs tem um projeto de empreendedorismo interno muito bom, do qual participei em 2025 e fui finalista na vertical Educação. Ali nascia meu projeto educacional, a InTEC. O meu ideal se tornava um negócio, e eu só estava iniciando meu maior aprendizado sobre Brasil, negócios e educação. E o foco sempre vai ser no nosso ecossistema: os negócios. Um projeto educacional no Brasil não nasce com foco em educar; nasce com foco, assim como vender esfihas, em lucrar. Não há um diferencial de mercado, uma análise. É um simples "gere leads" antes mesmo de gerar um produto, uma ideia, um método. Já fazia dois anos que eu atuava como professor de inglês autônomo, e esse meu projeto seria a cereja para minha carreira. Mas o mercado chamado edtech tinha outros planos para mim.

De repente, meus alunos começaram a sumir, e a oferta que era consistente foi ficando igual a água no deserto. Foi então que descobri um padrão: a queda começou exatamente no mesmo período em que algumas edtechs iniciaram seus trabalhos prometendo ensinar inglês a baixo custo, com várias aulas por semana e fluência em 12 meses. Descobri por que minha fonte secou: o código tinha sido quebrado, e era só o começo. Aulas de 30 minutos, cinco vezes na semana, por um valor camarada — o mesmo valor mensal que eu cobrava na época por uma hora semanal. Resultado: quebrei. E fui parar aonde? Exato, em uma edtech com esse mesmo padrão, onde até o momento ainda atuo enquanto recupero, com otimismo, meus negócios.

Mas, de novo: ensinar mais por um valor menor não é o problema, e sim como e com que objetivo isso é feito. Educar não é como vender roupas, onde quanto mais barato e mais gente tiver, melhor — uma camiseta, mesmo que de baixa qualidade, cumpre seu papel. Mas educação? Não é a mesma coisa. A questão é que a democratização da educação virou jargão e frase de efeito dentro de edtechs que dizem querer pessoas "apaixonadas por educação e em transmitir conhecimento". Mas nisso está implícito um: "Vou dividir sua hora-aula em dois, e você vai atender dois alunos pelo preço de um". Uma constante em todas as edtechs em que fiz entrevistas.

“Educar não é como vender roupas, onde quanto mais barato e mais gente tiver, melhor.”

Não muito tempo atrás, a hora-aula era sinônimo de atender um aluno e ganhar a hora por cada aluno atendido. Hoje, a hora-aula virou um "pagamos X a hora-aula, mas você atende dois alunos para ganhar esse X". Poderia até parecer justo se os valores de hora-aula não fossem os mesmos, mas divididos por dois. Ou seja: se você cobrava R$ 15 na sua hora particular, numa escola dessas novas edtechs sai R$ 7,50 por aluno. Uma manobra arrojada que, dentro do cenário atual, não infringe o piso salarial do professor, mas sucateia seu trabalho. E é aí que a lei precisa ser revista.

Uma empresa de qualquer ramo — mas principalmente na área educacional — tem que planejar sua estrutura antes de qualquer coisa. Só que uma coisa romantizada pelo "universo startup" foi a de montar o carro com ele em movimento, e o resultado é o caos. As edtechs focam em alcançar o máximo de alunos possíveis sem antes ver se têm competência para atender essa demanda. O resultado é o caos: alunos e professores frustrados. Ninguém aprende, ninguém ensina, mas os fundadores lucram. Missão cumprida — pelo menos para eles.

Durante todo esse texto, quis trazer através da minha própria jornada como o sistema de democratizar a educação foi bem-sucedido por um lado, pois mais gente teve acesso à educação, entrou em universidades, iniciou seu estudo de inglês; mas, por outro lado, a qualidade vem caindo na mesma proporção. Como quase tudo em nosso Brasil, não é feito com planejamento, com estrutura e diálogo entre as partes: é simplesmente feito, e que cada um faça da maneira que achar melhor — ou pior, em certos casos.

Esse texto não é sobre parar a democratização ou a digitalização da educação. É sobre como executar isso de uma maneira em que a qualidade de ensino e aprendizagem seja levada a sério, com alunos e professores satisfeitos com suas partes. Professor que ensina em escala industrial não ensina, cumpre meta numérica. E isso não só causa uma frustração profissional no professor, como uma desqualificação da profissão perante a sociedade: você desmoraliza um ator fundamental.

“Professor que ensina em escala industrial não ensina, cumpre meta numérica.”

Não é nesse escrito que vou oferecer ideias de mudança, mas elas são necessárias. Nos próximos artigos, trarei algumas propostas sobre como, no meu ponto de vista, podemos ajustar e conciliar a maravilhosa democratização da educação com qualidade e respeito a alunos e professores. Até lá, fiquem com essa reflexão e pensem em como isso pode evoluir para que nosso Brasil seja, de fato, um país do futuro.

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